Autores: Felipe Mondelli e Rafael Afonso Loschi
Os fungos do gênero Trichoderma são insumos arraigados na agricultura moderna, sendo muito estudados dadas as suas propriedades antagonistas de solo. Um aspecto relevante e de aplicação prática é o impacto positivo que esses organismos exercem sobre a sanidade vegetal, estimulando o crescimento e a produtividade de diversas culturas de importância econômica. Dessa forma, o grupo PACES (Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade) traz, na presente revisão, uma explicação breve sobre como Trichoderma harzianum atua na biologia e no controle de fitopatógenos com base em pesquisas científicas na área.
Inicialmente, aponta-se que T. harzianum caracteriza-se por ser um fungo filamentoso hialino, de crescimento rápido e alta capacidade de colonização, reconhecido por sua versatilidade metabólica e capacidade de produzir uma ampla gama de enzimas hidrolíticas e compostos bioativos que atuam diretamente sobre patógenos. Sua estrutura reprodutiva baseia-se na formação de conídios globosos ou subglobosos, dispostos em conidióforos ramificados, o que garante a eficiência na dispersão e sobrevivência em diversos substratos agrícolas (Brotman; Kapuganti; Viterbo, 2010; Machado, 2012).
Quanto à interação com o meio, as atividades promovidas por esse fungo são influenciadas por condições abióticas. Koike e Lucon (2003) realizaram ensaios que evidenciaram que a faixa térmica ideal para o crescimento miceliano situa-se entre 20°C e 30°C, sendo o T. harzianum particularmente tolerante a oscilações. Complementarmente, Barbosa et al. (2006) demonstraram que a esporulação é otimizada em umidade de 30% e sob condições aeradas, enquanto Amaral, Blanco e Graichen (2019) observaram que o fungo não apenas prefere uma faixa de pH ácido (4,5 a 6,0), como possui a notável capacidade de modular quimicamente o pH do meio para favorecer seu estabelecimento rizosférico.
Já a respeito do manejo fitossanitário, o uso de T. harzianum é altamente eficaz no biocontrole de patógenos severos mediante mecanismos como antibiose, micoparasitismo e indução de resistência. Sumida (2012) constatou reduções expressivas no tombamento pré e pós-emergente causado por Pythium sp. e Rhizoctonia solani, além de uma inibição direta sobre o crescimento micelial de Sclerotinia sclerotiorum, agente causal do mofo-branco (Tabela 1). Ademais, Görgen et al. (2009) elucidaram que a associação do fungo com plantas de cobertura, como a Urochloa ruziziensis, otimiza o controle biológico, visto que a presença da palhada estimula a germinação dos escleródios do patógeno, tornando-os vulneráveis ao parasitismo ativo do T. harzianum no produto comercial Trichodermil e reduzindo drasticamente a incidência da doença no campo (Figura 1).
Tabela 1 – Incidência e severidade de mofo-branco, produtividade na cultura da soja tratadas com produtos comerciais à base de Trichoderma sp. e fungicida fluazinam aplicados entre inverno e verão
| Tratamentos | Incidência (%) | Severidade (%) | Produtividade (kg/ha) | |||
| Controle | 48,1 | a | 56,1 | a | 3164,3 | a |
| Fluazinam | 14,4 | c | 8,8 | c | 3496,8 | a |
| Comercial 1 | 37,5 | b | 35,0 | b | 3237,6 | a |
| Comercial 2 | 40,0 | a | 41,3 | b | 3201,8 | a |
Fonte: adaptado de Sumida (2012).

Figura 1 – Incidência de mofo-branco na soja segundo dose de Trichodermil e presença de braquiária
Fonte: Görgen et al. (2009).
Portanto os dados experimentais reforçam a necessidade de um manejo criterioso e integrado, uma vez que a máxima eficiência do T. harzianum depende tanto das condições abióticas do solo — como umidade, aeração e pH — quanto da interação sinérgica com práticas culturais adequadas para garantir a sustentabilidade e a produtividade das lavouras.
REFERÊNCIAS
AMARAL, I. B.; BLANCO, N. H. M.; GRAICHEN, F. A. S. O pH da suspensão influencia na germinação de conídios de Trichoderma harzianum? Scielo Preprints, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.14375. Acesso em: 17 jun. 2026.
BARBOSA, K. L. N. et al. Efeito da umidade do substrato na produção de conídios de Trichoderma spp. In: JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA EMBRAPA SEMI-ÁRIDO, 2006, Petrolina. ANAIS DA JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA EMBRAPA SEMI-ÁRIDO. Petrolina: Embrapa Semiárido, 2006. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/159084/1/154158.pdf. Acesso em: 16 jun. 2026.
BROTMAN, Y.; KAPUGANTI, J. G.; VITERBO, A. Trichoderma. Current Biology, v. 20, n. 9, p. R390-R391, 2010. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2010.02.042. Acesso em: 17 jun. 2026.
GÖRGEN, C. A.; SILVEIRA NETO, A. N.; CARNEIRO, L. C.; RAGAGNIN, V.; LOBO JUNIOR, M. Controle do mofo-branco com palhada e Trichoderma harzianum 1306 em soja. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 44, n. 12, p. 1583-1590, 2009. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-204X2009001200004. Acesso em: 17 jun. 2026.
KOIKE, C. M.; LUCON, C. M. M. Efeito de diferentes fatores na esporulação e crescimento de isolados de Trichoderma spp. Arquivos do Instituto Biológico, v. 70, n. suplemento 3, p. 96-99, 2003.
MACHADO, D. F. M. et al. Trichoderma no Brasil: o fungo e o bioagente. Revista de Ciências Agrárias, v. 35, n. 1, p. 274-288, 2012. DOI: https://doi.org/10.19084/rca.16182. Acesso em: 17 jun. 2026.
SUMIDA, C. H. Controle químico e biológico do mofo branco na cultura da soja. 2012. 81 f. Tese (Doutorado em Agronomia) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2012. Disponível em: https://repositorio.uel.br/items/07293e93-bc21-4aaa-8a1e-518fdd8b11d6/full. Acesso em: 15 jun. 2026.

