Fotoperíodo da soja (Glycine max)

PACES – Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade

Autores: Camila Pastori Ottani e Matheus Yuri de Medeiros Piraí

O desenvolvimento e a produtividade da cultura da soja (Glycine max) são profundamente governados por variáveis bioclimáticas, destacando-se a temperatura média do ar e a disponibilidade de luz. Um aspecto relevante e de aplicação prática é a elevada sensibilidade fotoperiódica da planta, a qual condiciona a indução floral, o porte vegetativo e a adaptabilidade geográfica da cultura. Dessa forma, o grupo PACES (Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade) traz, na presente revisão, uma explicação breve sobre como a interação entre o fotoperíodo, a percepção fotorreceptora e os Grupos de Maturação Relativa (GMR) direciona o manejo e o planeamento da cultura da soja com base em pesquisas científicas na área.

No âmbito ecofisiológico, a indução floral da soja responde à duração do período de escuridão (nictoperíodo) e é mediada pelo fotorreceptor fitocromo, de modo que seja considerada uma planta de dias curtos (Thomas; Vince-Prue, 1997). Como se observa na figura 1, o fitocromo alterna entre duas formas interconversíveis: o P660, forma inativa, sintetizada na ausência de luz, e o P730, forma fisiologicamente ativa, convertida sob radiação no comprimento de onda do vermelho (Kendrick; Kronenberg, 1986). No caso da soja é induzida à floração quando o comprimento do dia é inferior ao seu fotoperíodo crítico, promovendo o acúmulo de P660 durante noites suficientemente longas para sinalizar ao meristema caulinar a reorganização de primórdios foliares em primórdios florais, isto é, o P730, que inibiria o florescimento, é menos acumulado, permitindo à planta iniciar sua fase reprodutiva. Uma vez que a duração solar varia em função da latitude e da posição astronômica da Terra ao longo do ano, pequenos desvios na época de sementeira alteram drasticamente o número de dias necessários para atingir o florescimento (Taiz et al., 2024).

Figura 1 – Dinâmica entre formas do fitocromo conforme exposição à luz

                                  Fonte: adaptado de Kendrick e Kronenberg (1986).

Para contornar as restrições impostas pela baixa oscilação fotoperiódica nas regiões tropicais e próximas da linha do Equador (Figura 2), os programas de melhoramento genético introduziram o caráter do período juvenil longo (Rodrigues et al., 2001). Durante o período juvenil, a planta permanece insensível às noites indutoras, mantendo o seu crescimento vegetativo por mais tempo antes de iniciar a fase reprodutiva. Esta alteração fisiológica evita a indução floral precoce em baixas latitudes, assegurando que a cultura acumule biomassa foliar, altura de planta e altura de inserção das primeiras vagens adequadas para suportar elevadas produtividades (Tagliapietra et al., 2022).

Figura 2 – Fotoperíodo para diferentes latitudes do hemisfério Sul. Quanto mais próximo do equador, menor o ângulo latitudinal e menor a variação do fotoperíodo ao longo do ano

                              Fonte: Maia et al. (2017).

 

A aplicabilidade prática destes conceitos reflete-se na categorização dos cultivares em Grupos de Maturação Relativa (GMR), cuja escala varia do 0 ao 10. Valores mais baixos de GMR identificam cultivares adaptados a latitudes mais elevadas e de dias longos (como a região Sul do Brasil), enquanto valores mais elevados (GMR de 8 a 10) destinam-se a baixas latitudes com dias mais curtos (Alliprandini et al., 2009) (Figura 3). O correto alinhamento entre o GMR e a latitude local é indispensável no planejamento agrícola: semear uma cultivar de baixo GMR em regiões de baixas latitudes induz uma floração precoce com porte anão e perda expressiva de rendimento, ao passo que a utilização de um GMR elevado em latitudes mais altas prolonga em excesso a fase vegetativa, gerando plantas excessivamente grandes e sujeitas ao acamamento (Oliveira et al., 2019).

Figura 3 – Grupos de maturação relativa (GMRs) de soja no Brasil conforme

                    Fonte: Vilela et al. (2016).

Referências:

ALLIPRANDINI, L. F. et al. Understanding soybean maturity groups in Brazil: environment, cultivar classification, and stability. Crop Science, v. 49, p. 801-809, 2009. DOI: https://doi.org/10.2135/cropsci2008.07.0390. Acesso em: 29 out. 2026.

 

KENDRICK, R. E.; KRONENBERG, G. H. M. (ed.). Photomorphogenesis in plants. Springer: 1986. 608 p.

 

MAIA, A.; OLIVEIRA, M. E. F.; SOUZA-FABJAN, J. M. G.; BALARO, M. F. A.; BRANDÃO, F. Z.; FONSECA, J. F. Distúrbios reprodutivos em cabras leiteiras e impactos potenciais nos sistemas de produção. Revista Acadêmica Ciência Animal, [s. l.], v. 15, p. 77-89, 2017. DOI: https://doi.org/10.7213/academica.15.S02.2017.A08. Acesso em: 31 out. 2026.

 

OLIVEIRA, A. B. de. et al. (ed.). Soja: o produtor pergunta, a Embrapa responde. Brasília, DF: Embrapa, 2019. 274 p. (Coleção 500 perguntas, 500 respostas). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1118408/2/500PERGUNTASSojaed012019.pdf. Acesso em: 31 out. 2026.

 

RODRIGUES, O.; DIDONET; A. D.; LHAMBY, J. C. B.; BERTAGNOLLI, B. F.; LUZ; J. S. Resposta quantitativa do florescimento da soja à temperatura.

e ao fotoperíodo. Pesq. agropec. bras., Brasília, v. 36, n. 3, p. 431-437, mar. 2001, Disponível em: https://www.scielo.br/j/pab/a/jfDtZBDKPDZShNzMNrLPPRx/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 30 out. 2026.

 

TAGLIAPIETRA, E. L. et al. (ed.). Ecofisiologia da soja: visando altas produtividades. 2. ed. Santa Maria, RS: Field Crops, 2022. 432 p.

 

TAIZ, L.; MØLLER, I. A.; MURPHY, A.; ZEIGER, E. Fisiologia e desenvolvimento vegetal. 7. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2024. 864 p.

 

THOMAS, B.; VINCE-PRUE; D. Photoperiodism in Plants. 2. ed. Academic Press, 1997. 445 p.

 

VILELA, G. F. et al. Cultivares de soja: macrorregiões 4 e 5 Norte e Nordeste do Brasil. Londrina, PR: Embrapa Soja, 2016. 57 p. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1043986/1/Cultivaressojanortenordeste2016OL1.pdf. Acesso em: 30 out. 2026.

 

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