APLICAÇÕES PRÁTICAS DA FENOLOGIA DO MILHO

Autores: André Zanini Pimentel e Jorge Robert Whately Adair

As escalas fenológicas são fundamentais na agricultura moderna, sendo amplamente usadas para alinhar o manejo cultural às necessidades fisiológicas reais das lavouras, sem se prender ao tempo transcorrido desde a implantação. A aplicação prática dessa ferramenta otimiza tratos culturais, como adubação, irrigação e controle fitossanitário, previne perdas e promove a produtividade em culturas de grande importância econômica. Para isso, destacam-se duas abordagens complementares na cultura do milho (Zea mays): a escala de Ritchie (Tabela 1), focada no reconhecimento visual da planta (dividida em estádios vegetativos “V” e reprodutivos “R”), e a escala de Fancelli, de caráter operacional e fitotécnico, que agrupa esses estádios em fases integradas (fases 0 a 10) (Figura 1) diretamente associadas à tomada de decisão no campo e à definição dos componentes de rendimento. Dessa forma, o grupo PACES (Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade) traz, na presente revisão, uma explicação breve sobre como a correlação entre as escalas fenológicas de Ritchie (Ritchie; Hanway; Benson, 1986) e Fancelli (1986) direciona o manejo da cultura do milho (Zea mays) com base em pesquisas científicas na área.

O desenvolvimento vegetativo do milho tem início na fase 0 (estádios VE a V3 da escala de Ritchie), caracterizada pela emergência e pela emissão das primeiras folhas. Desde VE, já se recomenda iniciar o controle preventivo da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), vetor do enfezamento (Embrapa, 2020). A condução adequada do plantio exige observar a profundidade de semeadura recomendada, que, segundo Silva et al. (2015), varia de 6 a 8 cm em São Paulo e é de aproximadamente 2,5 cm em Santa Catarina, sob temperaturas de solo ideais entre 25 °C e 30 °C. Na sequência, a fase 1 (V4 a V7) compreende a diferenciação meristemática e a definição do potencial de folhas e espigas (Fancelli; Dourado Neto, 2004), convindo, portanto, terminar a adubação nitrogenada de cobertura (Oliveira, 2021; Cantarella et al., 2022). Durante os primeiros estádios, até V4, o meristema apical permanece protegido abaixo do nível do solo, conferindo resistência contra geadas e pisoteio, porém aumentando a suscetibilidade do vegetal ao encharcamento (Wordell Filho; Elias, 2012). Segundo Kozlowski (2002), é também entre V2 e V7 que se estabelece o período crítico de prevenção à interferência (PCPI) de plantas daninhas (Figura 2).

 

Tabela 1 — Fases fenológicas vegetativas e reprodutivas do milho pela escala de Ritchie

Vegetativas Reprodutivas
VE, emergência R1, embonecamento
V1, 1a folha desenvolvida R2, bolha d’água
V2, 2a folha desenvolvida R3, leitoso
V3, 3a folha desenvolvida R4, pastoso
Vn, enésima folha desenvolvida R5, formação de dente
Vt, pendoamento R6, maturidade fisiológica

Fonte: Magalhães e Durães (2006).

 

Figura 1 — Escala fenológica de Fancelli para o milho

Fonte: Dourado Neto (2002).

 

Ainda nos estádios vegetativos, a fase 2 (V8 a V11) é determinante para a definição da produtividade, pois em V8 ocorre a definição do número de fileiras de grãos por espiga (Dourado Neto, 2002). Esse estádio também delimita o encerramento do controle químico contra a cigarrinha-do-milho, uma vez que infecções tardias não dispõem de tempo hábil para desenvolver os sintomas de enfezamento na lavoura (Embrapa, 2020). Posteriormente, a fase 3 (V12 a Vn) consolida a determinação do número de grãos por fileira no estádio V12 e estende-se até a formação dos estilos-estigmas  em V17 (Fancelli; Dourado Neto, 2004).

 

Figura 2 — Esquema de matointerferência no milho segundo sua fase fenológica. PAI (período anterior à interferência), PCPI (período crítico de prevenção à interferência) e PTPI (período total de prevenção à interferência)

Fonte: Kozlowski (2002).

 

A transição para a fase reprodutiva se consolida na fase 4 (Vt), marcada pela emissão da inflorescência masculina e pela liberação de pólen, período em que a planta se mostra extremamente sensível aos estresses térmicos e hídricos (Wordell Filho; Elias, 2012). Logo em seguida, a fase 5 (R1), com o surgimento da inflorescência feminina, representa o embonecamento e a fertilização, momento de máxima exigência nutricional e hídrica, no qual a cultura chega a consumir cerca de 8 mm d’água por dia. O déficit hídrico nessa etapa é crítico, podendo ocasionar falhas graves de polinização e abortamento de grãos (Ciampitti; Elmore; Lauer, 2016). Nas fases 6 a 8 (R2 a R4), observa-se o enchimento de grãos pelos estádios de bolha d’água, leitoso e pastoso; o estádio R3 define o momento de colheita para milho verde, enquanto em R4 (pastoso) o grão acumula metade do seu peso seco final (Fancelli; Dourado Neto, 2004). Finalmente, as fases 9 e 10 (R5 a R6) abrangem a formação de dente, o acompanhamento do avanço da linha do leite e a maturação fisiológica em R6, sinalizada pelo aparecimento da camada preta na base do grão, garantindo que o monitoramento fenológico rigoroso previna perdas e maximize a eficiência no uso de insumos (Wordell Filho; Elias, 2012).

 

 

 

 

 

Referências:

CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J. A.; MATTOS JR., D.; BOARETTO R. M.; RAIJ, B. van (ed.). Boletim 100: Recomendações de adubação e calagem para o estado de São Paulo. Campinas, SP: Instituto Agronômico, 2022. 489 p.

 

CIAMPITTI, I.A.; ELMORE, R.W.; LAUER, J. Fases de desenvolvimento da cultura do

milho. Kansas State University Agricultural Experiment Station and Cooperative Extension

Service, 2016. Disponível em: https://www.npct.com.br/npctweb/npct.nsf/article/BRS-3137/$File/MF3305BP-CornGrowth-portuguese_FINAL.pdf. Acesso: 06 de janeiro de 2025.

 

DOURADO NETO, D. Milho. In: PEIXOTO, A. M. et al. (org.). Enciclopédia Agrícola Brasileira. São Paulo: Edusp, 2002. p. 519-525. (Volume 4).

 

EMBRAPA — EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Guia de boas práticas para manejo dos enfezamentos e da cigarrinha-do-milho. 2020. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1129511/1/Charles-Guia-Boas-Praticas-Cigarinha-do-Milho.pdf. Acesso em: 21 ago. 2026.

 

FANCELLI, A. L. Plantas Alimentícias: guia para aula, estudo e discussão. Piracicaba: USP/ESALQ, 1986. 131 p.

 

FANCELLI, A. L.; DOURADO NETO, D. Produção de milho. 2. ed. Guaíba: Agropecuária, 2004. 360 p.

 

KOZLOWSKI, L. A. Período crítico de interferência das plantas daninhas na cultura do milho baseado na fenologia da cultura. Planta Daninha, v. 20, n. 3, p. 365-372, dez. 2002. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-83582002000300006. Acesso em: 16 ago. 2026.

 

MAGALHÃES, P. C.; DURÃES, F. O. M. Fisiologia da Produção do Milho. Sete Lagoas, MG: Embrapa, 2006. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/490408/1/Circ76.pdf. Acesso em: 17 ago. 2026.

 

OLIVEIRA, C. O que você precisa saber sobre fenologia do milho. [S. l.]: Aegro, 2021. Disponível em: https://blog.aegro.com.br/fenologia-do-milho/. Acesso em: 21 ago. 2026.

 

RITCHIE, S. W.; HANWAY, J. J.; BENSON, G. O. How a Corn Plant Develops. Ames, Iowa: Iowa State University of Science and Technology Cooperative Extensive Service, January 1986. 24 p. Disponível em: https://s10.lite.msu.edu/res/msu/botonl/b_online/library/maize/www.ag.iastate.edu/departments/agronomy/images/corn/fig10.gif. Acesso em: 16 ago. 2026.

 

SILVA, P. R. A. et al. Emergência de plântulas de milho em diferentes profundidades de semeadura. Irriga., v. 1, n. 1, p. 178-185, jun. 2015. DOI: https://doi.org/10.15809/irriga.2015v1n1p178. Acesso em: 21 ago. 2026.

 

WORDELL FILHO, J. A.; ELIAS, H. T. (org.). A cultura do milho em Santa Catarina. 2. ed. Florianópolis: Epagri, 2012. 478 p.

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