MATÉRIA ORGÂNICA DO SOLO E O ARMAZENAMENTO DE CARBONO A LONGO PRAZO

GMicS – Grupo de Extensão em Microbiologia do Solo

Autores: Ligia Pontes

O solo é um sistema trifásico complexo, dinâmico e heterogêneo, constituído essencialmente por quatro frações inter-relacionadas: mineral, líquida (solução do solo), gasosa (ar do solo) e orgânica. Enquanto a fração mineral, influenciada pelo material de origem e pelos processos de intemperismo, constitui a base da matriz sólida do solo, as frações líquida e gasosa preenchem os poros, garantindo trocas gasosas e hídricas, a fração orgânica, embora tenha menor porcentagem, atua como componente biologicamente ativo e de maior relevância funcional para o funcionamento da Terra.

Nas paisagens tropicais, marcadas pelo intenso intemperismo ao longo do tempo geológico, predominam argilas de baixa atividade química e óxidos de ferro e alumínio. A reduzida área de superfície específica e limitada geração de cargas superficiais dessas argilas, resultam em solos com baixa capacidade de troca de cátions (CTC) intrínseca. Nesse contexto, a matéria orgânica do solo (MOS) surge como a principal geradora de cargas, sendo responsável pelo aumento da CTC total, compensando as limitações minerais. Mesmo representando uma fração relativamente pequena dos nossos solos, mesmo assim, ela é capaz de promover maior estoque de carbono, regular a disponibilidade de nutrientes essenciais, controlar o teor de água, tamponar a acidez, diminuir a toxidez de Al e metais pesados, promover aeração e estrutura do solo, além de otimizar processos naturais de aporte de nutrientes, como o de fixação de N2. Alterando a física, química e biologia os solos, funcionando como a força motriz de um sistema inteiro.

À luz dos esforços globais na diminuição do aporte atmosférico de dióxido de carbono a fim de mitigar os efeitos das mudanças climáticas, o solo se mostrou uma grande solução para sequestrar o carbono atmosférico. Essa capacidade de atuar como um dreno global fundamenta-se no ciclo biogeoquímico do carbono, o qual se inicia a partir de organismos fotossintetizantes, que transformam o gás carbônico em glicose, que faz parte da constituição de um polissacarídeo estrutural complexo da planta, a celulose. Quando a planta morrer, esse polímero será decomposto pela fração biológica do solo, que devolverá cerca de 2/3 desse carbono à atmosfera devido ao processo de respiração e ⅓ será assimilado pelos microrganismos, passando a fazer parte de sua estrutura. O carbono assimilado passa fazer parte da biomassa microbiana e é efetivamente fixado ao solo por longos períodos quando os microrganismos morrem e formarem a necromassa, que é rica em compostos polares carregados eletricamente que se ligam à superfícies de argilas e óxidos de ferro e alumínio. Assim, forma-se a matéria orgânica associada aos minerais (MOAM), que fica protegido quimicamente e fisicamente da ação biológica enzimática, dificultando sua decomposição e liberação, aumentando sua persistência no solo.

Dessa forma, embora represente uma pequena fração quantitativa do solo, a matéria orgânica exerce uma influência desproporcional sobre seu funcionamento, atuando simultaneamente sobre atributos físicos, químicos e biológicos. A capacidade de o solo armazenar carbono demonstra que sua importância ultrapassa a escala da produção agrícola, relacionando-se diretamente à manutenção dos serviços ecossistêmicos e à regulação do clima. Nesse sentido, o manejo do solo deixa de ser apenas uma prática voltada à manutenção da produtividade e passa a representar uma ferramenta fundamental para a conservação de sua qualidade e para o aumento do armazenamento de carbono. Práticas que favoreçam o aporte contínuo de resíduos vegetais, a manutenção de cobertura do solo e a atividade biológica podem contribuir para a formação e estabilização da matéria orgânica associada aos minerais, ampliando a permanência do carbono no solo. Assim, compreender e preservar a matéria orgânica significa reconhecer que, mesmo presente em pequenas quantidades, ela exerce uma função essencial na sustentação de todo o sistema solo-planta-atmosfera.

Referências

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