PACES – Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade
Autores: Raissa Bueno e Sandra Julia Lima de Sousa
Os herbicidas se destacam dentro do grupo de insumos mais usados na agricultura brasileira, sendo bastante investigados quanto suas ações e comportamento no meio ambiente, dadas suas propriedades físico-químicas. Um aspecto relevante, porém, menos elucidado é o impacto que esses insumos exercem sobre a natureza biológica do solo, especificamente sobre sua microbiota, a qual é fundamental para altas produtividades e sustentabilidade nas lavouras.
Dessa forma, o grupo PACES (Projetando Agricultura Compromissada em Sustentabilidade) traz, na presente revisão, uma explicação breve sobre como os herbicidas podem interferir na dinâmica dos microrganismos edáficos, com base em pesquisas científicas na área.
Inicialmente, cumpre destacar que as interações entre herbicidas e microrganismos são complexas, com os efeitos benéficos e deletérios, que dependem das espécies e dos produtos utilizados. Silva (2010) realizou um ensaio para avaliar a influência de diferentes moléculas na eficiência respiratória e na biomassa total da microbiota do solo.
Seus resultados sugerem que diurom + hexazinona e trifloxissulfurom-metílico reduziram a eficiência metabólica, enquanto tembotriona e sulfentrazona reduziram em 53% a biomassa, destacando que, por diurom e hexazinona não afetarem diretamente o metabolismo dos organismos, o efeito se deve a outros componentes do produto comercial.
De outro lado, autores diversos reportam efeitos negativos de herbicidas na riqueza de espécies de microrganismos no solo. Childs (2007) observou que moléculas como metolacloro, imazetapir, trifluralina e glifosato podem causar reduções temporárias na diversidade fúngica e bacteriana, inibindo processos respiratórios e enzimas. Moretto et al. (2017) também observaram a redução na riqueza de bactérias (número de espécies) por interferência dos herbicidas atrazina, 2,4-D e diurom (Figura 1).

Figura 1 – Redução na riqueza bacteriana por efeito de atrazina, diurom e 2,4-D
Fonte: Moretto et al. (2017).
Moreira e Siqueira (2002), realizaram experimentos de degradação de herbicidas no solo e observaram que após um período de adaptação (fase lag), algumas populações bacterianas e fúngicas proliferam ao metabolizar os resíduos químicos.
Silva (2010) observou em ensaios de laboratório a confirmação de que o histórico de aplicação de herbicidas na área influencia a taxa de biodegradação. Skora Neto e Campos (2004) concluíram que o emprego de plantas de cobertura em substituição do pousio nas lavouras reduz o banco de sementes (plantas daninhas) e estimula a microbiota do solo, o que simultaneamente diminui a necessidade de aplicações de herbicidas e pode aumentar a biodiversidade.
Portanto os dados experimentais reforçam a necessidade de um manejo criterioso e integrado com práticas sustentáveis, uma vez que a resiliência da microbiota depende do tipo de herbicida usado e das condições físico-químicas do solo, as quais determinam a sorção e a persistência dos compostos no ambiente (Oliveira; Brighenti, 2018).
REFERÊNCIAS
CHILDS, Grisel Mariom Fernandez. Efeitos de Herbicidas na microbiota do solo em sistema fechado. Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, [S. l.], p. 1-70, 12 jul. 2007.
MOREIRA, F.M.S.; SIQUEIRA, J.O. Microbiologia e bioquímica do solo. Lavras: UFLA/FAEPE, 2002.
MORETTO, Jéssica Aparecida Silva; ALTARUGIO, Lucas Miguel; ANDRADE, Pedro Avelino; FACHIN, Ana Lúcia; ANDREOTE, Fernando Dini; STEHLING, Eliana Guedes. Changes in bacterial community after application of three different herbicides. Fems Microbiology Letters, [s. l.], v. 364, n. 13, 4 jun. 2017. DOI: https://doi.org/10.1093/femsle/fnx113. Acesso em: 24 abr. 2026.
OLIVEIRA, M.F.; BRIGHENTI, A.M. Controle de Plantas Daninhas. Brasília, 2018.
SILVA, Alexandre Ferreira. Ação de herbicidas sobre cultivares de cana-de-açúcar e na atividade da microbiota do solo. UFV, [S. l.], p. 1-74, 31 dez. 2010.
SKORA NETO, F.; CAMPOS, A. C. Alteração populacional da flora infestante pelo manejo pós colheita e ocupação de curtos períodos de pousio com coberturas verdes. Boletim Informativo da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas, v. 10, p. 135, 2004. Suplemento.

